
Conturbação política. Medo nuclear. Conspirações envolvendo os altos escalões do governo norte-americano. Estupro, violência gráfica e moralidade complexa. Normalmente, essas não são características clássicas de uma história em quadrinhos. Mas em Watchmen (Panini, 2009, 460 páginas), uma história multifacetada e de diversas camadas de entendimento, escrita pelo lendário Alan Moore e desenhada pelo genial Dave Gibbons, são comuns a cada chocante quadro da história, lançada originalmente em 1986 em formato de minissérie pela DC comics, numa época em que a maioria dos quadrinhos traçava uma trajetória simplista e colorida em meio a uma época negra da história.
Com o recente lançamento do filme baseado na graphic novel, por muitas vezes chamada de inadaptável para o cinema, pelo próprio autor, a história em quadrinhos original de Moore e Gibbons ganhou uma projeção que só um filme de holywood pode ter. No entanto, quem vai ao cinema ou lê o quadrinho esperando as tradicionais cores primárias e as histórias simples e descompromissadas das HQs tradicionais encontra uma narrativa política, densa e cheia de nuances que levam o leitor a uma versão alternativa do século 20, onde os heróis fantasiados se tornaram comuns e os estados unidos venceram a guerra do Vietnã devido a uma vantagem improvável que levou o presidente Nixon a se reeleger mais três vezes.
Discutir Watchmen é discutir o panorama mental de seu autor, Alan Moore. Inglês, filho de operários da pequena cidade de Northampton, donde nasceu e até hoje vive, recluso e avesso à publicidade, Moore pode ser considerado o mais importante e controverso autor de histórias em quadrinhos da década de 80, e certamente um dos maiores gênios (até mesmo na excentricidade) da arte da escrita. Premiado por incontáveis obras, como V de Vingança, Do Inferno, Liga Extraordinária e importantes contribuições a editoras de quadrinhos, particularmente nas revistas do Batman e do Monstro do Pântano, Moore foi contra toda adaptação feita de sua obra no cinema, e não é diferente desta vez com Watchmen, considerada sua obra-prima. Ele alega que suas obras só funcionam na linguagem à qual foram destinadas, as novelas gráficas, termo que foi praticamente cunhado pelo autor.
E isso se torna evidente na obra resenhada. Watchmen trata de temas que são tabu para o cinema atual, o que dirá para as histórias em quadrinhos tradicionais. Na novela, considerada um dos 100 maiores romances da história pela revista Time, o mito do super-herói é desconstruído em prol de uma análise psicológica de alguém que se veste de máscara e combate o crime na cidade de Nova Iorque. A história se desenvolve a partir do assassinato de um dos “Vigilantes” (como se designam os heróis mascarados), que trabalhava para o governo, o Comediante, cujo mistério vai ser investigado pelo herói obstinado e levemente paranóico Rorschach, figura mais psicologicamente complexa da obra. Pouco a pouco, Rorschach descobre que há uma conspiração por trás da morte de Edward Blake, o Comediante, e a tentativa de assassinato de outros heróis, que pode levar a uma conspiração de proporções mundiais.
Citações de livros e músicas de temática controversa e de autores como Bob Dylan, Nina Simone e de obras literárias como A ópera dos três vinténs de Bertold Brecht aparecem lado a lado às disposições gráficas de Dave Gibbons, o desenhista da obra, que faz um trabalho icônico atribuindo características de heróis existentes em revistas em quadrinhos tradicionais para conferir veracidade à narrativa. Até mesmo o encarregado das cores da obra, John Higgins, faz um trabalho seminal, usando com maestria as cores primárias e secundárias para conferir ao mesmo tempo um tom familiar, porém escuro à obra. Tudo ligado ao livro se torna subversivo, e o leitor viaja dentro das mentes dos personagens de maneira a e identificar com eles, não importando a quantidade de atos moralmente questionáveis dos heróis.
Os protagonistas da história ganham tons de realidade devido à sua complexidade psicológica. O protagonista Rorschach é um daqueles mendigos que passa o dia a anunciar o fim do mundo, que à noite se torna o herói obstinado e de pensamento de extrema-direita que age na clandestinidade. O herói Coruja é o gênio criador de bugigangas tecnológicas que se encontra numa crise de meia idade em meio à sua aposentadoria como vigilante. A mocinha Laurie Juspeczyk, desde pequena, carrega o carma de seguir a carreira de heroína de sua mãe, uma vigilante aposentada, com todo o ônus que isso traz para uma mente ainda em desenvolvimento. O todo-poderoso Dr. Manhattan, único herói com super poderes da obra, fruto de um acidente numa instalação nuclear, se torna o grande trunfo dos estados unidos nas guerras do século 20, mas perde cada vez mais a sua humanidade, e vê a vida apenas como mais um fenômeno cósmico. Até mesmo o herói morto no começo da história, Edward Blake, o comediante, figura chave na trama, é o “herói” com senso de moral mais distorcida, o que condiz perfeitamente com suas funções de agente do governo. O mega-milionário Ozymandias é o herói que se aproveitou de sua imagem pública para enriquecer devido à publicidade ligada aos super-heróis.
Este grupo é pontuado por histórias de um antigo grupo de heróis, os Minute-men, que foram os primeiros a vestirem máscaras e combaterem os criminosos fantasiados nos anos 40. Esta iniciativa de heróis termina em meio a acusações de homossexualidade e estupro, mostrando que um grupo formado por pessoas com egos tão inflados a ponto de se fantasiarem e combaterem o crime não poderia dar certo por muito tempo. O antigo grupo de heróis termina em desgraça, seus integrantes em hospícios, ou assassinados por causa de sua opção sexual, ou ainda com problemas severos de consumo de álcool, mostrando que uma união de personalidades tão fortes nunca poderia terminar bem. A história do grupo é contada por um dos integrantes, o primeiro Coruja, que se aposenta como dono de uma oficina de carros antigos, e escreve suas memórias que são dispostas no fim de cada capítulo da história na forma de uma biografia. Aliás, essa é uma das características de Watchmen, ao fim de cada capítulo, há uma leitura opcional. Estes textos permitem ao leitor o entendimento da leitura de mundo das personagens, mostrando o outro lado da história que pertence tão somente ao universo da HQ.
Analisando como se daria o impacto de vigilantes mascarados atuando no mundo sob o ângulo da psicologia, sociologia e história reais, Alan Moore acabou criando a maior obra do gênero, referência básica a qualquer autor do ramo e um eterno best seller, Watchmen se tornou a obra mais complexa provinda de um meio editorial que nasceu destinado a histórias infantis, e definiu o futuro de toda obra gráfica lançada após ele. O tema pode ser discutível, mas a realização, a capacidade divisora de águas do livro é inegável e dever ser legado para qualquer obra de ficção criada desde então.
O terror nuclear pós Hiroshima da década de 50, transportado para a crise de mísseis de cuba dos anos 60, à apreensão capturada na novela gráfica dos anos 80, ainda se mantém atual com os testes nucleares norte-coreanos realizados nesta semana por Pyongyang, graças à escrita nostradâmica de Alan Moore e o talento de Dave Gibbons na criação de Watchmen.
MOORE, Alan, GIBBONS, David. Watchmen, Edição Definitiva, Ed. Panini, (460 pág., R$ 85,00), São Paulo, 2009.
Com o recente lançamento do filme baseado na graphic novel, por muitas vezes chamada de inadaptável para o cinema, pelo próprio autor, a história em quadrinhos original de Moore e Gibbons ganhou uma projeção que só um filme de holywood pode ter. No entanto, quem vai ao cinema ou lê o quadrinho esperando as tradicionais cores primárias e as histórias simples e descompromissadas das HQs tradicionais encontra uma narrativa política, densa e cheia de nuances que levam o leitor a uma versão alternativa do século 20, onde os heróis fantasiados se tornaram comuns e os estados unidos venceram a guerra do Vietnã devido a uma vantagem improvável que levou o presidente Nixon a se reeleger mais três vezes.
Discutir Watchmen é discutir o panorama mental de seu autor, Alan Moore. Inglês, filho de operários da pequena cidade de Northampton, donde nasceu e até hoje vive, recluso e avesso à publicidade, Moore pode ser considerado o mais importante e controverso autor de histórias em quadrinhos da década de 80, e certamente um dos maiores gênios (até mesmo na excentricidade) da arte da escrita. Premiado por incontáveis obras, como V de Vingança, Do Inferno, Liga Extraordinária e importantes contribuições a editoras de quadrinhos, particularmente nas revistas do Batman e do Monstro do Pântano, Moore foi contra toda adaptação feita de sua obra no cinema, e não é diferente desta vez com Watchmen, considerada sua obra-prima. Ele alega que suas obras só funcionam na linguagem à qual foram destinadas, as novelas gráficas, termo que foi praticamente cunhado pelo autor.
E isso se torna evidente na obra resenhada. Watchmen trata de temas que são tabu para o cinema atual, o que dirá para as histórias em quadrinhos tradicionais. Na novela, considerada um dos 100 maiores romances da história pela revista Time, o mito do super-herói é desconstruído em prol de uma análise psicológica de alguém que se veste de máscara e combate o crime na cidade de Nova Iorque. A história se desenvolve a partir do assassinato de um dos “Vigilantes” (como se designam os heróis mascarados), que trabalhava para o governo, o Comediante, cujo mistério vai ser investigado pelo herói obstinado e levemente paranóico Rorschach, figura mais psicologicamente complexa da obra. Pouco a pouco, Rorschach descobre que há uma conspiração por trás da morte de Edward Blake, o Comediante, e a tentativa de assassinato de outros heróis, que pode levar a uma conspiração de proporções mundiais.
Citações de livros e músicas de temática controversa e de autores como Bob Dylan, Nina Simone e de obras literárias como A ópera dos três vinténs de Bertold Brecht aparecem lado a lado às disposições gráficas de Dave Gibbons, o desenhista da obra, que faz um trabalho icônico atribuindo características de heróis existentes em revistas em quadrinhos tradicionais para conferir veracidade à narrativa. Até mesmo o encarregado das cores da obra, John Higgins, faz um trabalho seminal, usando com maestria as cores primárias e secundárias para conferir ao mesmo tempo um tom familiar, porém escuro à obra. Tudo ligado ao livro se torna subversivo, e o leitor viaja dentro das mentes dos personagens de maneira a e identificar com eles, não importando a quantidade de atos moralmente questionáveis dos heróis.
Os protagonistas da história ganham tons de realidade devido à sua complexidade psicológica. O protagonista Rorschach é um daqueles mendigos que passa o dia a anunciar o fim do mundo, que à noite se torna o herói obstinado e de pensamento de extrema-direita que age na clandestinidade. O herói Coruja é o gênio criador de bugigangas tecnológicas que se encontra numa crise de meia idade em meio à sua aposentadoria como vigilante. A mocinha Laurie Juspeczyk, desde pequena, carrega o carma de seguir a carreira de heroína de sua mãe, uma vigilante aposentada, com todo o ônus que isso traz para uma mente ainda em desenvolvimento. O todo-poderoso Dr. Manhattan, único herói com super poderes da obra, fruto de um acidente numa instalação nuclear, se torna o grande trunfo dos estados unidos nas guerras do século 20, mas perde cada vez mais a sua humanidade, e vê a vida apenas como mais um fenômeno cósmico. Até mesmo o herói morto no começo da história, Edward Blake, o comediante, figura chave na trama, é o “herói” com senso de moral mais distorcida, o que condiz perfeitamente com suas funções de agente do governo. O mega-milionário Ozymandias é o herói que se aproveitou de sua imagem pública para enriquecer devido à publicidade ligada aos super-heróis.
Este grupo é pontuado por histórias de um antigo grupo de heróis, os Minute-men, que foram os primeiros a vestirem máscaras e combaterem os criminosos fantasiados nos anos 40. Esta iniciativa de heróis termina em meio a acusações de homossexualidade e estupro, mostrando que um grupo formado por pessoas com egos tão inflados a ponto de se fantasiarem e combaterem o crime não poderia dar certo por muito tempo. O antigo grupo de heróis termina em desgraça, seus integrantes em hospícios, ou assassinados por causa de sua opção sexual, ou ainda com problemas severos de consumo de álcool, mostrando que uma união de personalidades tão fortes nunca poderia terminar bem. A história do grupo é contada por um dos integrantes, o primeiro Coruja, que se aposenta como dono de uma oficina de carros antigos, e escreve suas memórias que são dispostas no fim de cada capítulo da história na forma de uma biografia. Aliás, essa é uma das características de Watchmen, ao fim de cada capítulo, há uma leitura opcional. Estes textos permitem ao leitor o entendimento da leitura de mundo das personagens, mostrando o outro lado da história que pertence tão somente ao universo da HQ.
Analisando como se daria o impacto de vigilantes mascarados atuando no mundo sob o ângulo da psicologia, sociologia e história reais, Alan Moore acabou criando a maior obra do gênero, referência básica a qualquer autor do ramo e um eterno best seller, Watchmen se tornou a obra mais complexa provinda de um meio editorial que nasceu destinado a histórias infantis, e definiu o futuro de toda obra gráfica lançada após ele. O tema pode ser discutível, mas a realização, a capacidade divisora de águas do livro é inegável e dever ser legado para qualquer obra de ficção criada desde então.
O terror nuclear pós Hiroshima da década de 50, transportado para a crise de mísseis de cuba dos anos 60, à apreensão capturada na novela gráfica dos anos 80, ainda se mantém atual com os testes nucleares norte-coreanos realizados nesta semana por Pyongyang, graças à escrita nostradâmica de Alan Moore e o talento de Dave Gibbons na criação de Watchmen.
MOORE, Alan, GIBBONS, David. Watchmen, Edição Definitiva, Ed. Panini, (460 pág., R$ 85,00), São Paulo, 2009.
1 comentários:
Disse tudo! =D
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